a mão e o peão.

Wednesday, August 30, 2006

número 1

ora bem. primeira tentativa. contra todas as expectativas e contrariando, até, a extensa especulação que se vinha fazendo nos meios de comunicação social ibéricos quanto à inauguração do meu blog, começarei por partilhar um texto que me é muito caro, mas que não fui eu que escrevi. sim, porque se quero começar bem, quem melhor do que Camus? deliciai-vos com O Mito de Sísifo, em versão dramática ("Ao segundo", 2005):

"A segurança bem humana de duas mãos cheias de terra...

(Porquê?)

Os deuses tinham condenado Sísifo a empurrar sem descanso um rochedo até ao cume de uma montanha, de onde a pedra caía de novo. Porquê? Tinham pensado, com alguma razão, que não há pior castigo do que o trabalho inútil.

Há todo o esforço de um corpo tenso que se empenha em erguer a enorme pedra, rolá-la até ao cimo. Há um corpo crispado, a face colada à pedra, um ombro que recebe o choque dessa massa coberta de barro, os braços que de novo a empurram, a segurança bem humana de duas mãos cheias de terra.

(Porquê?)

E há os gestos. Gestos de levantar, apanhar o eléctrico, quatro horas de escritório ou de fábrica, o eléctrico, refeição, quatro horas de trabalho, duas mãos cheias de terra, o eléctrico, (porquê?) refeição, sono, e levantar, apanhar o eléctrico, segunda feira, terça feira, dia11, quarta feira, Fevereiro, quinta feira, (o meu campo - diz Goethe - é o tempo), dia 20, sexta feira, segunda feira, levantar, refeição, 1998, 1999, sábado, Março de 2002, dia 6, fábrica, o eléctrico, esta estrada segue-se com facilidade a maior parte do tempo. Ganhamos o hábito de viver antes de adquirirmos o de pensar. E depois vem o espanto.

Em relação a todos os dias de uma vida sem lustro o tempo carrega connosco. Mas chega sempre um momento em que somos nós a ter de carregá-lo.

No termo do longo esforço de Sísifo, montanha acima, um esforço medido pelo espaço sem céu e pelo tempo sem profundidade, Sísifo vê então a pedra a resvalar em poucos instantes para esse mundo inferior e desce de novo à planície. É neste regresso que Sísifo interessa. Um rosto que sofre tão perto das pedras é já ele próprio pedra! Vemos esse homem descer outra vez com um andar pesado mas igual. Essa hora, que é como uma respiração, essa hora é a da consciência. Há esta corrida, que todos os dias nos precipita um pouco mais para a morte. Há um corpo que guarda esse avanço irreparável. Há que parar. Há que recomeçar.

(- Porquê?)

É até cómodo ser-se lógico, mas é quase impossível ser-se lógico até ao fim. O sentimento do absurdo pode esbofetear qualquer homem à esquina de qualquer rua, e

tudo está bem.

A descida faz-se uns dias na dor

(Parar, estranhar, pensar, sorrir e recomeçar).

E faz-se uns dias na alegria.

Virá algum insulto à existência, o facto de ela não ter sentido nenhum?

(Tudo está bem)

Em cada um desses instantes em que decide recomeçar, Sísifo ganha o seu destino, é mais forte que o seu rochedo. O seu destino pertence-lhe, o seu rochedo é a sua coisa.

É até cómodo ser-se lógico...

(- porquê?)

Persuadido da origem bem humana de tudo o que é humano, cego que deseja ver e que sabe que a noite não tem fim, está sempre em marcha. O seu rochedo rola e

“tudo está bem”.

Esse universo sem deus nem dono não lhe parece estéril. Cada grão dessa pedra, cada estilhaço mineral dessa montanha cheia de noite forma por si só um mundo, e

“tudo está bem!” O seu rochedo é a sua coisa.

A própria luta basta.

É preciso imaginar Sísifo feliz."

1 Comments:

Blogger Marlene said...

Que bom ler-te por aqui...
Meu anjo, se já éramos companheiros de uma vida, agora somos companheiros bloguistas... :)
Começaste muito bem, sim sr....adoro este texto,adorei a peça...
Baci

August 31, 2006  

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